Eu sou um monstro.
Louco, doentio, insano, completamente insano.
Essa loucura me arca as costas, me pesa no olhar, ser monstro esgota.
Sinto um cheiro de giz de cera, que me embala devagar, me leva pro passado, pros desenhos pendurados com prendedores em varais, frágeis varais.
Aqui ficou só a ausência de cheiros. Tão já uma bagagem repleta de lembranças e saudades de outras épocas vividas, e de outras que sequer foram vividas, eu as leio, as roubo de escritores já mortos e sinto-lhes, roubo-lhes as dores, sinto-lhes, prepotentemente acredito saber o que sentiam ao escrever aquelas nostalgias.
Ficou, ficou o uniforme, o beijo roubado em vão, porque a morte levou o resto. Ficou, ficou as roupas pretas e as pulseiras pretas, porque a vida molda, nem que seja a força, e tudo perde a razão. Ficaram, ficaram dois gatos, ficou o "prestígio", ficou ter um pai, ficou ter uma mãe que fazia cafuné, ficou. Ficou o quarto cheio de posteres, ficou, ficou a inocência, ficou. O vinho escondido no quarto com os amigos? Ficou, ficou junto com os filmes proibidos, ficaram. Os cigarros proibidos, o primeiro porre, o primeiro beijo que foi nojento, também ficou. Ficou subir as escadas de quatro, tentando não fazer barulho, ficou segurar a risada até explodir dentro da sala de aula, ficou a professora mandando sair. Ficou o sangue quente, pra trás. Ficou, agora, no presente, o comodismo, ficou. Veio e ficou. Regras, eu sigo. O que eu quero, não vivo. Ficou, ficou, ficou, foi só o que restou que acabou ficando de vez. Vá vive, vive, vive logo menino, vive logo menina. Que hoje achas que o mundo é seu, amanhã verá que era só coisa de liceu, nem sequer você é seu.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Joanne Presunçosa.
Joanne buscava desesperadamente por um cigarro naquela tarde, apenas outra tarde de nostalgia, na qual ela punha tudo junto num vasilhame, as coisas que mais lhe afligiam o nobre coração (nobre e novo, apesar dela já considerá-lo tão gasto e experiente). E lá se iam, ao vasilhame, para serem mexidos até se tornarem uma massa homogênea e com uma viscosidade cremosa, amores perdidos, amores achados, amores platônicos, desamores, dissabores, amizades, distância, saudades, sobriedade, embriaguez, fotos de algum tempo atrás, cujos traços de si mesma ela observava saudosa, e percebia como seu rosto houvera mudado nesses poucos anos que a atropelaram impiedosamente, ao apresentarem seus dias, avidamente. Ela via que o sorriso e os cantos dos olhos já não andavam mais sozinhos, largados esquecidos sobre aquela pele macia, eles agora pareciam viver acompanhados de umas covinhas bobas que surgiam sempre por ali, e também na testa. Joanne sofria muito nesses seus momentos inevitáveis, e chorava bastante, embora algumas vezes a dor, ou sabe-se lá o que (ela nunca soube explicar, nem aos outros nem a si mesma, o que exatamente ela sentia) era tão profunda e desesperadamente irracional, que sequer chorar ela conseguia, e nesses casos, a mistura homogênea de sentimentos e coisas antigas ficava empelotada, pois as lágrimas eram quem dava a liga.
Joanne tinha rituais estabelecidos para esses momentos, duas vezes ela pegou coisas que a feriam, do seu passado, coisas como cartas, fotos, objetos, e os queimou impiedosamente, enquanto bradava silenciosamente: 'Isso já está superado, preciso deixar ir embora'. Ela dizia com uma convicção tola de criança, como que querendo se auto acreditar, esperneava, pelo brinquedo novo, pelo coração novo, a memória nova, sem resquício nenhum daquela outra tão gasta (segundo ela achava). Joanne também gostava muito de ingerir coisas alcoólicas nessas horas, ela bebia mesmo, gut gut, sem dó, sozinha, e depois ficava de um jeito meio besta, sorte que ela sempre estava sozinha, senão iriam rir muito dela, e de como ela ficava. Meio entorpecida, com uns risos frouxos e embasbacados na cara, misturados a soluços de um choro interminável, mas que estava interrompido. Ainda bem que Joanne não usava maquiagens pois a cara dela ficaria ainda pior, e a mistura homogênea ficaria no ponto, só que toda preta, borrada de lápis de olho, "mais preta do que minhas próprias lembranças? Difícil" - diria Joanne, sempre se considerando o ser mais sofrido da face da terra. Ela também gostava de abrir mais as feridas, largar tudo no vivo, como quem revela um segredo que implora para ser sabido. Ela pegava umas músicas dessas bem tristes mesmo e ficava ouvindo, e ela gostava muito de se colocar no lugar das pessoas tristes que viviam dentro dessas músicas, isso deixava a menina com uma dor no peito, tão, tão grande, e mesmo assim ela não achava que tava bom, aí ela ia fuçar nas coisas dela, e achava umas coisas que nossa, só vendo, muito tristes mesmo. Ela segurava na roupa dela e puxava as mangas da camiseta e a gola, puxava forte, até o pano machucar a pele, e fazer aquele estralo de linha se soltando. Aí ela abraçava as próprias pernas, e puxava os cabelos, ela pareceria louca, se a vissem, e provavelmente estava mesmo, esfregava o rosto com força, apoiava um travesseiro na parede e socava, (muito sofrida, mas covarde demais pra socar a parede em si) e tudo o mais mesmo. Certa vez faltou-lhe cigarros, Joanne ficou doidinha, doidinha, ela gostava muito de dizer que não era viciada nem nada do tipo, como se ela precisasse realmente de cigarros para viver. "Mas nessas horas" - ela dizia - "eu preciso muito, muito, muito, pq eu gosto de ver a luzinha brincando perto da minha boca, enquanto eu trago, trago pra mim, aquele calorzinho que sai, e eu gosto de ver o reflexo da luzinha no espelho", nesses momentos ela tinha negócios estranhos, ficava se retorcendo, ela tinha uma coisa que chamava de "estica estica", que era uma coisa, tipo uma agonia, na qual ela tinha que se espreguiçar muito, além dos limites que seus membros conseguiam, e ela ia esticando até ter câimbras, aí ela tinha que fazer massagem na câimbra, que doía muito forte mesmo, e demorava um pouco a passar, e quando passava ela caia de costas na cama, como se houvesse acabado de ter um daqueles negócios que as pessoas tem e caem depois sem fôlego na cama, ou no lugar em que estiverem, "aí, eu já tinha esquecido o cigarro maldito" - ela dizia- . Ela é uma menina que gosta de escrever, mas sempre fica falando que quando ela se sente bem e feliz com a vida dela, não consegue escrever nada legal, e fica saindo umas "rimas pobres", que parecem coisas que ela escrevia na 3ª série, ela usa essas palavras pra descrever, dizia ela que um homem chamado Antônio Maria a tinha descrito certa vez quando escreveu essa frase:
"Toda mulher, após trinta dias de felicidade sente fome e sede de desgraça. Só não irá embora se não tiver condução."
Ela gosta de escrever coisas quando está se sentindo nesses momentos estranhos, que aí sim saem coisas legais segundo ela mesma fica falando sempre : "Não é me gabar, sabe, mas quando eu estou feliz e leio o que eu escrevi quando eu estava triste, ou bêbada ou qualquer uma dessas coisas ou nenhuma delas, só indefinida, eu nem acredito que fui eu quem escreveu, dá até orgulho de mim, já quando eu tô triste, ou bêbada ou qualquer uma dessas coisas ou nenhuma delas, só indefinida, e leio o que eu escrevi feliz, eu também nem acredito que fui eu quem escreveu, fico com vergonha, acho que minha cara até cora de vergonha"
O maior medo de Joanne era de ficar louca de vez, de um dia desses entrar naquele lugar da mistura homogênea sem manchas de lápis preto de olho, e nunca mais conseguir achar o caminho de volta, ou então, até saber o caminho de volta, mas de estar desiludida e quebrada demais para querer voltar. Ela tem medo de querer se deitar lá, num daqueles buracos macios e infinitos, e deixar o corpo dela lá, e a mente também, só ficar lá, e parar de ser, de existir, só um objeto em cima do outro, sem consciência. "Preguiça de viver eu já tenho sempre, não falta muito". Joanne, Joanne, pobre menina, mulher, triste, profunda, sente demais, acha que sofre muito, mais do que todo mundo, presunçosa em sua dor, coloca sempre seus sentimentos tolos e confusos em pedestais inalcançáveis, fora de mão até mesmo pra ela e seus pezinhos erguidos, que tentam em vão agarrar nalgumas daquelas caixas de bobagens misturadas, algo ou alguém que lhe trouxesse sentido a tudo aquilo. Pobre Joanne, cujo coração só começara a sofrer, cuja mente só começara a ter que acumular lembranças tristes de pessoas e horas boas, e lembranças boas de pessoas e lugares tristes. Pobre Joanne, tão jovem, tão presunçosa. Alguém tem um cigarro pra Joanne brincar no espelho com um reflexo vermelho, que não a cara dela de chorar e esfregar tudo aquelas lágrimas nojentas que dão a liga?
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Mistura Incrédula.
Só resta agora uma mistura
incrédula
Minha ânsia e humor negro
Sem moedas nem cédulas
Mentes, mãos e minha boca
vermelha.
Idéias nojentas, toques
macios e palavras tingidas.
Fim de festa, gestos
confusos.
Sobrou apenas o resto de
feridas
Sentimentos dormindo num
papel amassado
Num beco depois da garrafa
vazia
Uma tontura solitária na
multidão tardia
Tudo tão confuso e nublado,
sem rima.
Uma melodia grita meu nome
Voz macia, redonda,
pornográfica.
Me acaricia na sua indecência
É o que resta da noite cheia
Uma esmola de ilusões
Amanhecer como agora?
Com vergonha do Sol e
preguiça do dia
Meu sorriso não vem, engulo
um soluço.
De choro ou
embriaguez?
Se me embriago, choro, se
choro me embriago.
Vou embora beijar minhas
mentiras
Ou fico até minha verdade chegar?
Se não há realidade, fico
aqui.
O gosto amargo do teu cheiro
Em minha boca o dia inteiro
Em volta de mim corpos
rastejam
Minha vista escurece, a mente
roda.
Você lava meus lábios com tua
saliva
O dia voou, e a noite voltou.
Só resta agora uma mistura
incrédula
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Qual o sujeito da oração:
-O sujeito é predicado?
Sujeito que faz oração
E depois faz pecado?
Deleite
de trocadilhos
Trocados
no troco do leite
Cafezinho com pão
Com a fé, vinho e pão
Sem
sentir sentimento
Nem um sente, nem outro
Se
ressente em pensamento
E se derrete em desencontro
Ouvindo
canções
Escreveu poemas, poesias.
Dedicados
às emoções
Em meio ao mar, maresias.
Inspiração
musical
De um anjo bom ou mal (aqui cabe trocadilho com MAL, anjo mal feito, mal acabado, caído, whatever)
De um amor que odeia ou ama
Vive na veia e na alma
Poeta tolo, pobre de ti.
Inspira-se de repente
Escreve pra sempre
Palavras incontinenti
Amante
errante
Entregou a carne viva do
peito
Avante, andante.
Levanta e dá teu jeito
Esquece
o amor bandido
Assassina-o
de seu interior
Segue o rumo interrompido
Tira o espinho da flor
terça-feira, 15 de maio de 2012
Sorriso de Seda.
Estava ali parado com aquele sorriso de seda
Macio e fácil de se desfazer, derreteria com as lágrimas que
desbravavam seu rosto, que ele secava, adiando esse dilúvio de insorrisos que
lhe reservaram tão cruelmente.
Teria sido melhor não saber, pois assim não era culpa dele,
ele tentara, dizia a si mesmo. Mas agora que sabe, entende que o fracasso todo
deve-se a sua covardia. E agora ele perdeu aquele gosto tolo de ignorância ou
disfarce, ele sorria, fraca e timidamente, com um brilho grato no olhar, grato,
que se ele não soubesse iria ficar pra sempre na busca, acreditando em suas
mentiras auto-contadas, inventadas cuidadosamente de forma a colorir ainda mais
fortemente sua aquarela de desamores imaginários.
Agora ele estava prestes a abandonar a sua autopiedade
inconsciente, conseguiria seguir, assim como todos seguem e saberia quando
valesse a pena jogar um sorriso marginal qualquer em qualquer outro olhar.
sábado, 12 de maio de 2012
Jeito Torto.
Esse eterno amar errado
Essa ânsia de ninguém ao lado
Esse não aceitar
Esse eterno hesitar
Quando te amo e te faço mal
Quando te chamo eu faço mal
Esse jeito torto de amar
Esse peito morto de amar
Esse olhar que fala
Essa voz que cala
Essas mãos que não acariciam
Os seus vãos que me viciam
O meu demonstrar que nada mostra
O meu agir que só se engana
Meu neutro que se prostra
Meu partir de mente insana
Meu amar que só te mata
Te falando, te fazendo bobeira.
Esse meu mar de prata
Te faltando, te sabendo inteira.
Te amando com esse cheiro
Te ignorando por inteiro
Meu jeito torto de amar
Pensando acertar
Esse meu prazer egoísta
E minha atitude infantil
Meio fascista, meio nazista.
Sutilmente vil
Me faz saber te amar certo
Me faz te querer por perto
Sem te privar de amor
Sem te causar dor
Por que te venero
E te adoro
Mas não sei se regenero
Ou se pioro
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Palavras Marginais.
Apenas isso de trepar, de entrar no outro.
De gozar forte e abundantemente
Apenas isso de deitar e acender um cigarro
Sujando o filtro com o gosto do seu corpo
Tragando do cigarro a parte que não traguei da tua alma
Enquanto te sugava, e te roubava o ar.
Bebendo do copo o resto de vinho quente
Menos quente que teu sexo, e menos molhado também.
Porque tudo do seu corpo já me percorreu
Seja em correntezas de suor, ou em vergões.
Seja em rastros de saliva com seu sabor e minha dor
E tudo do meu corpo já entrou em ti
Seja com minha língua sedenta de beijos
Em bocas variadas, com vagar ou com força bruta
Seja com minhas mãos, ou meu olhar em tuas curvas.
Também, quando te percorri em pensamento eu sorri
Porque isso é apenas um resto nojento e podre
Mas é esse cheiro que a gente respira
Assim como ainda suo teu cansaço, você ainda descansa meu
ar.
E será assim, como a libido do mel.
O teu sorriso líquido nunca se solidificou em mim
Mas seu sexo evaporou nas gotas que desperdiçamos
E agora nem o gelo desse efeito entorpecente
Nem o fogo que sinto em meus olhos vermelhos
Nada disso, nem tudo isso, nem nada de nada.
Vai queimar ou congelar nada de você em mim
Não queima porque fogo é o tempo que passou
E gelo é o que amaldiçoa pra eternidade
Maldição de derreter pra sempre em teu fogo
Maldição de pra sempre, que já passou e não se vai
Talvez não combine com nada de antes mas, ouso dizer
Que minhas mãos entrelaçam as suas e se torna uma
E haverá sempre um resto meio fétido de nós
Nem que seja um abraço na memória ou um último sorriso dado
Meu amor petrificado morto tão precoce
Ainda que não combine com nada
Ainda que se saliente de tudo o antes dito
Eu tenho por você, algo que me aperta a vida, me mata,
E se contradiz fazendo pulsar, meu coração e meu sexo,
Que forma é essa doente insana, podre e morta de sentir?
Que momento, que segundo me trouxe essa certeza?
Em que sorriso seu, ou em que olhar deixei cair minha
sanidade?
Apenas você me disse: Eu te amo, e eu disse: Idem!
Sorri e olhei pro lado, largamos as mãos e eu morri um
pedaço.
Assinar:
Postagens (Atom)